Jordana Vieira / Assessoria de Comunicação do LAIS/UFRN
A incorporação de tecnologias digitais aos processos de ensino e formação em saúde é um elemento estratégico para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e amplia sua capacidade de resposta frente a contextos emergenciais, como foi visto na pandemia da covid-19. Isso pode ser visto no artigo “Data report about course on underlying cause-of-death coding (ICD-10): the case virtual learning environment of the Brazilian health system”, publicado recentemente por pesquisadores do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN), na revista científica internacional Frontiers.
O estudo é fruto da tese de doutorado do pesquisador Aldiney Doreto, realizado no do programa de Doutoramento em Educação a Distância eLearning (EDeL) da Universidade Aberta de Portugal (UAb-PT) em parceria com com a Universidade do Minho (Uminho), também de Portugal. A ação é possibilitada pelo acordo de cooperação entre o LAIS/UFRN com a Universidade Aberta de Portugal (UabPT), no âmbito do projeto Pesquisa-ação na Formação Humana em Saúde com Tecnologia e ao Longo da Vida: um olhar para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Sistema Único de Saúde, bem como, um novo Plano de Trabalho com o Laboratório de Educação a Distância e eLearning (LE@D).
Nesse contexto, o estudo foi motivado pela alta frequência de falhas, erros e imprecisões no preenchimento das Declarações de Óbito (DO) no Brasil. De acordo com Doreto, “esses problemas decorrem da falta de qualificação dos profissionais, da alta rotatividade de codificadores e da escassez de treinamentos contínuos. Um ponto crítico citado é o uso excessivo de “garbage codes” (códigos lixo), que representam aproximadamente um terço das mortes no país e não têm utilidade para análises de saúde pública”, afirma.
Por isso a importância estratégica da qualificação para a Vigilância e o SUS, ainda para o autor, “a qualificação desse processo é estratégica porque o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) fornece dados essenciais para monitorar e entender as principais causas de morte na população. As informações são fundamentais para avaliar as condições de saúde, definir prioridades e tomar decisões informadas sobre a evitabilidade e prevenção de mortes no âmbito do SUS”, aponta.
O Ambiente Virtual de Aprendizagem do SUS (AVASUS) entra como uma das ferramentas utilizadas para democratizar o acesso a essa qualificação em saúde, sendo um recurso digital que fortalece e promove a Educação Permanente em Saúde (EPS). O sistema facilita a transferência de conhecimento e o treinamento da força de trabalho em escala massiva, o que é fundamental em um país de dimensões continentais como o Brasil. “Através da mediação tecnológica, o AVASUS permite que a capacitação alcance profissionais em diferentes regiões, superando barreiras geográficas”, ressalta o pesquisador.
Os dados encontrados no artigo são qualificados e podem interferir diretamente no melhor planejamento de políticas públicas, já que permitem identificar e monitorar tendências epidemiológicas de forma mais precisa. Dessa maneira, auxiliam na definição de prioridades sanitárias, na avaliação da eficácia de programas de saúde já existentes, além de, melhorar a gestão de recursos, ao fornecer um panorama claro sobre a evitabilidade de óbitos e os determinantes específicos de mortalidade.
A publicação do artigo e o desenvolvimento do trabalho foram conduzidos pela pesquisadora do LAIS/UFRN e do Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta de Portugal, Janaína Rodrigues. Em entrevista, ela destaca a importância do conceito de Resiliência do sistema de saúde, que é a capacidade que um sistema de saúde tem de se adaptar diante de crises ou situações adversas, sempre cumprindo a sua função essencial de garantir cuidado à população. “O artigo demonstra que a educação mediada por tecnologia foi um fator determinante para que o SUS pudesse responder rapidamente a emergências (como por exemplo na pandemia da COVID-19)”, aponta.
A pesquisadora ainda ressalta a importância que o artigo tem no sentido de tornar o conhecimento científico em informações palpáveis que verdadeiramente alteram a realidade, “este estudo quebra a ideia de que a produção científica deve ficar restrita a bibliotecas universitárias. Ele aproxima a ciência do chão da unidade de saúde, através de soluções baseadas na prática e validação da escala” finaliza.