O estudo de pesquisadores do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) aponta os impactos do Projeto “Sífilis Não” em todo o território nacional

 

A The Lance Regional Health, uma das principais revistas científicas do mundo na área de saúde, traz, em sua mais recente edição, um artigo com os resultados do Projeto “Sífilis Não”. O artigo intitulado “Use of Interrupted Time Series Analysis in Understanding the Course of the Congenital Syphilis Epidemic in Brazil” (https://www.thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(21)00159-9/fulltext) é um trabalho científico de autoria de um grupo de pesquisadores brasileiros e de estrangeiros, da Universidade de Harvard nos Estados Unidos da América, da Universidade de Athabasca no Canadá e a da Universidade de Coimbra em Portugal, todos vinculados ao Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) no Brasil.

Com o título em português,  Uso da Análise de Séries Temporais Interrompidas na Compreensão do Curso da Epidemia de Sífilis Congênita no Brasil , o artigo publicado na The Lancet foi desenvolvido por meio de cooperações técnicos-científicas nacionais e internacionais com cientistas da Universidade Harvard, nos Estados Unidos da América; da Universidade de Athabasca, no Canadá; da Universidade de Coimbra, em Portugal; da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e da Universidade Federal do Espírito Santo, ambas no Brasil.

Como uma das revistas mais importantes do mundo científico, os periódicos da The Lancet (https://www.thelancet.com/journals/lanam/home) têm amplo alcance global, com mais de 84 milhões de visitas anuais no seu site, TheLancet.com, e 141 milhões de artigos baixados nos dois endereços eletrônicos:  TheLancet.com  https://www.thelancet.com/ e ScienceDirect https://www.springernature.com/sdg_oabooks. 

Todo o trabalho é baseado na tese do professor Rafael Pinto, doutorando do Programa de Pós-graduação em Sistemas e Computação da UFRN, sob a orientação dos professores PhD. Lyrene Silva e PhD. Ricardo Valentim, ambos da UFRN.

 

O artigo apresenta achados científicos importantes no âmbito do enfrentamento à sífilis no Brasil, ao mesmo tempo em que  discute resultados baseados na utilização de métodos computacionais, com robustos modelos estatísticos de regressão linear para medir a efetividade de políticas públicas de saúde. A regressão linear é uma forma matemática que os cientistas utilizam para observar e demonstrar tendências, ou seja, se os casos estão subindo ou reduzindo.

 

Os cientistas conseguiram demonstrar no artigo publicado na The Lancet a efetividade das ações de intervenção do Projeto “Sífilis Não” no território brasileiro. Os resultados apontam que, caso o conjunto de ações do Projeto “Sífilis Não” não tivessem sido implementadas o Brasil poderia ter vivenciado um aumento de 28,79% dos casos de sífilis congênita nos municípios brasileiros, que foram definidos como prioritários pelo Ministério da Saúde, até o final de 2019.

De acordo com os pesquisadores, os resultados são animadores, pois conseguiram demonstrar que os métodos computacionais aplicados contribuíram para avaliar a efetividade de políticas públicas de saúde – “isso é muito inovador e impactante, pois permite a utilização de novas metodologias de avaliação e monitoramento das políticas públicas de saúde, o que fortalece a gestão pública e fortalece o controle social”, disse o Professor Ricardo Valentim.

Outro achado científico importante, discutido no artigo pelos autores, também com base nos algoritmos computacionais elaborados por eles, é que o Brasil, depois de mais de uma década, conseguiu mudar a tendência das notificações dos casos de sífilis. O país mantinha, até 2018, aumento de casos, ano após ano. No entanto, a partir de 2019, foi verificado redução dos casos de sífilis adquirida, em gestantes e congênitas. Apesar de ainda ser necessário superar vários desafios, por exemplo, o de eliminar a transmissão vertical da sífilis congênita no país, os cientistas consideram esse um dado importante, pois não é fácil, e nem trivial, mudar uma trajetória negativa de notificação de casos depois de mais de 10 anos de aumentos sucessivos.

 

Os métodos computacionais aplicados correlacionaram essa mudança positiva de tendência às intervenções do “Projeto Sífilis Não”, os casos passaram a reduzir no Brasil depois deste projeto. Esse fenômeno já não era registrado no Brasil há muito tempo, mais de uma década com registros de aumento de casos não é fácil de superar”, ressaltou Rafael Pinto, um dos autores do artigo.

 

O cenário da sífilis no Brasil

Nos anos de 2019 e 2021, o Brasil registrou redução nos casos de sífilis em todo o território, modificando uma tendência de mais de uma década. Os dados mais expressivos dizem respeito aos casos de sífilis congênita, que apontam para uma maior testagem das gestantes e tratamento, evitando a infecção do bebê, ou seja, reduzindo a transmissão vertical, algo desejável e preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Os dados são do Boletim Epidemiológico – Sífilis 2021, da Secretaria de Vigilância em Saúde, do Ministério da Saúde, divulgado no último mês de outubro do mesmo ano, com informações obtidas por meio de levantamentos realizados em todos os estados brasileiros.

A mudança de comportamento foi percebida por meio dos números. A redução nos casos de detecção de sífilis adquirida alcançou o patamar de 26,6%. Já para os casos de sífilis congênita, quando a criança é infectada pela mãe durante a gestação ou do parto, foi  de 9,4%. De acordo com o boletim epidemiológico, a sífilis adquirida, agravo de notificação compulsória desde 2010, teve uma taxa de detecção de 54,5 casos por 100.000 habitantes, em 2020. Também em 2020, a taxa de detecção de sífilis em gestantes foi de 21,6/1.000 nascidos vivos; a taxa de incidência de sífilis congênita, de 7,7/1.000 nascidos vivos; e a taxa de mortalidade por sífilis congênita, de 6,5/100.000 nascidos vivos.

Essas reduções são resultantes de uma mudança de comportamento da população, impulsionada por políticas públicas e ações efetivamente colocadas em prática. Um dos pontos importantes nesse cenário é o Projeto “Sífilis Não”, com forte atuação em todo o território brasileiro, desde 2018. O projeto é resultado de uma cooperação técnica entre a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), por meio do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS) e o Ministério da Saúde em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).

De acordo com o artigo científico, a questão da epidemia no Brasil mostra resultados importantes com relação à sífilis adquirida, sífilis em gestante, mas principalmente no que diz respeito à sífilis congênita. O que mais chama a atenção é que após a intervenção do Projeto “Sífilis Não”, como ferramenta de indução de política pública do Ministério da Saúde, esses dados começam a melhorar. É importante destacar que o Brasil vinha aumentando o número de casos em todos os tipos de sífilis até o ano de 2017 e, após a intervenção do “Sífilis Não” esses dados começam a decair. Essa tendência se manteve, também, no ano de 2020.

O diretor executivo do LAIS, professor Ricardo Valentim, explica que o cenário aponta para um aumento nas notificações de sífilis em gestantes, numa comparação entre os anos de 2018 e 2020. No entanto, neste mesmo período houve uma redução dos casos de sífilis congênita. Para Valentim, as notificações de sífilis em gestantes representam que essa mulher está recebendo o atendimento adequado durante o pré-natal, mas também apontam para uma redução significativa nos casos de sífilis congênita. Ou seja: a testagem está funcionando e essa gestante está sendo tratada, evitando que a infecção seja transmitida para o bebê. “Isso mostra que o projeto “Sífilis Não” tem contribuído de maneira importante, como ferramenta de indução de política pública do Ministério da Saúde  na redução dos casos de sífilis em todo o país. “Esse é um dado que merece ser comemorado, mas sempre alertando a população para a consciência quanto à prevenção, testagem e tratamento em relação à sífilis. Ainda há muito a ser feito no Brasil, pois precisamos reduzir a taxa de sífilis congênita para os patamares aceitáveis, como preconizado pela OMS”, ressaltou o diretor do LAIS.

 

Projeto Sífilis Não

Lançado em 2017 o Projeto de Pesquisa Aplicada para Integração Inteligente Orientada ao Fortalecimento das Redes de Atenção para Resposta Rápida à Sífilis – também conhecido como Projeto “Sífilis Não” – é resultado de uma parceria entre Ministério da Saúde, o Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN) e a Organização Pan Americana de Saúde (OPAS). O principal objetivo do projeto é contribuir juntamente com outras ações (federais, estaduais e municipais) no enfrentamento à infecção de sífilis no território brasileiro. Para tanto, o Projeto está estruturado em quatro eixos: vigilância, gestão e governança, cuidado integral e educomunicação.

Outro eixo fundamental do projeto “Sífilis Não” diz respeito às questões de internacionalização da pesquisa. Neste ponto, o LAIS tem feito grandes articulações internacionais com a França, Portugal, Estados Unidos e Espanha, fechando cooperações internacionais com universidades que desenvolvem pesquisas com expertises nos eixos do projeto. “Entre eles está o desenvolvimento de tecnologia,  inovação, de recursos educacionais, e de comunicação. Por isso, as missões atuais com essas universidades têm este enfoque”, explicou o diretor do Laboratório.

O LAIS tem acompanhado o consenso internacional sobre a importância da cooperação técnica, científica e tecnológica para ampliar o acesso ao conhecimento e novas tecnologias em favor do fortalecimento institucional, da qualidade das políticas públicas e do progresso dos países.

 

Referência

Use of Interrupted Time Series Analysis in Understanding the Course of the Congenital Syphilis Epidemic in Brazil

 

Pinto R, Valentim R, Fernandes da Silva L et al. Use of Interrupted Time Series Analysis in Understanding the Course of the Congenital Syphilis Epidemic in Brazil. The Lancet Regional Health – Americas. 2021. DOI: 10.1016/j.lana.2021.100163.

 

Autores

M.Sc Rafael Pinto 

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal – RN, Brazil

Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), Natal – RN, Brazil

Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), Natal – RN, Brazil

 

Professor PhD. Ricardo Valentim

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal – RN, Brazil

Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), Natal – RN, Brazil

 

Professor PhD. Lyrene Fernandes da Silva

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal – RN, Brazil

 

Professor PhD. Gustavo Fontoura de Souza

Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), Natal – RN, Brazil

Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), Natal – RN, Brazil

 

PhD. Thaísa Góis Farias de Moura Santos Lima 

Ministério da Saúde, Brasília – DF, Brasil

Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), Natal – RN, Brazil

 

Professor M.Sc Carlos Alberto Pereira de Oliveira 

Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro – RJ, Brasil

 

Professor PhD. Marquiony Marques dos Santos 

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal – RN, Brazil

Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS), Natal – RN, Brazil

 

Professor PhD. Angélica Espinosa Miranda 

Ministério da Saúde, Brasília – DF, Brasil

Universidade Federal do Espírito Santo – ES, Brasil

 

Professor PhD. Aliete Cunha-Oliveira 

Universidade de Coimbra, Coimbra, Portugal.

 

Professor PhD. Vivekanandan Kumar 

Universidade de Athabasca, Athabasca, Canadá

 

Professor PhD. Rifat Atun

Escola de Saúde Pública de Harvard, Universidade de Harvard, Boston, MA, Estados Unidos